domingo, 29 de outubro de 2017

Resolução da prova de Literatura Brasileira da UFPR 2017/2018 (29/10/17)



Q – A respeito dos poemas que compõem o livro Últimos Cantos (1851), do maranhense Gonçalves Dias, assinale a alternativa correta.
a) O nacionalismo romântico se expressa no antológico poema “Canção do exílio”, que abre o livro com um tom laudatório: “Nosso céu tem mais estrelas, / Nossas várzeas têm mais flores, / Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida mais amores”.
b) O embate entre tribos indígenas, com a consequente prisão de um guerreiro, é narrado em “I-Juca-Pirama”, poema marcado por variedade métrica: “O prisioneiro, cuja morte anseiam, / Sentado está, / O prisioneiro, que outro sol no ocaso / Jamais verá!”.
c) A pureza racial dos indígenas brasileiros é exaltada no poema “Marabá” por meio da descrição da personagem-título: “— Meus olhos são garços, são cor das safiras, / — Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar; / — Imitam as nuvens de um céu anilado, / — As cores imitam das vagas do mar!”.
d) O aspecto fúnebre das lendas românticas é representado no poema “O gigante de pedra”, em que se destaca a monstruosidade do personagem: “Gigante orgulhoso, de fero semblante, / Num leito de pedra lá jaz a dormir! / Em duro granito repousa o gigante, / Que os raios somente puderam fundir”.
e) O lirismo romântico prefere temas delicados, como as brincadeiras inocentes da criança em “Mãe-d’água”: “Minha mãe, olha aqui dentro, / Olha a bela criatura, / Que dentro d’água se vê! / São d’ouro os longos cabelos, / Gentil a doce figura, / Airosa leve a estatura; / Olha, vê no fundo d’água / Que bela moça não é!”.

Resolução:
A) INCORRETA. O poema “Canção do Exílio” não faz parte da obra Últimos Cantos.
B) CORRETA. A variedade métrica é uma estratégia do autor para conferir ritmo ao poema e, também, sugerir ao leitor as mudanças das ações narradas como, por exemplo, a captura e a posterior soltura do protagonista.
C) INCORRETA. A protagonista de “Marabá” é uma índia mestiça, conforme sugere a própria significação da expressão indígena “marabá” = mayra (francês) + aua (índio). Ou seja, a protagonista do poema é fruto de uma relação entre um francês e uma índia brasileira. Por não apresentar traços típicos indígenas, acaba sendo desprezada pelos guerreiros de sua tribo.
D) INCORRETA. “O Gigante de Pedra” é a reconstituição de uma lenda indígena e não aborda aspectos fúnebres. O poema “Nênia”, por exemplo, é um poema que traz a temática sugerida pela banca: aborda a morte de D. Pedro I.
E) INCORRETA. O poema “Mãe D´Água” reconstitui outra lenda indígena. Neste caso, temos a lenda da Uiara (ou Iara).


Q – No romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto, o narrador tece considerações generalizantes a respeito da sociedade de sua época, ao mesmo tempo em que narra a vida da protagonista, de sua família e a malandragem de Cassi Jones. A respeito de aspectos da construção de Clara ou de fatos de que ela participa, assinale a alternativa correta.
a) A afirmação “é próprio do nosso pequeno povo fazer uma extravagante amálgama de religiões e crenças de toda a sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os transes e momentâneas agruras de sua existência” (capítulo I) explica a frequência de Clara a igrejas e templos de diferentes religiões.
b) A frase “A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, encontrando ponto de honra, brigando, especialmente as mulheres” (capítulo VII) alude às provocações que Clara desferia contra suas vizinhas.
c) A ponderação “Cada um de nós, por mais humilde que seja, tem que meditar, durante a sua vida, sobre o angustioso mistério da Morte, para poder responder cabalmente, se o tivermos que o fazer, sobre o emprego que demos a nossa existência” (capítulo VIII) refere-se à cena da morte de Clara.
d) O comentário “O seu ideal na vida não era adquirir uma personalidade, não era ser ela, mesmo ao lado do pai ou do futuro marido. Era constituir função do pai, enquanto solteira, e do marido, quando casada. Não imaginava as catástrofes imprevistas da vida” (capítulo VIII) prenuncia as dificuldades que Clara enfrentou no seu casamento com Cassi.
e) A análise “A educação que recebera, de mimos e vigilâncias, era errônea. Ela devia ter aprendido da boca dos seus pais que a sua honestidade de moça e de mulher tinha todos por inimigos, mas isto ao vivo, com exemplos, claramente...” (capítulo X) denuncia a frágil educação recebida por Clara como responsável pelo seu destino.

Resolução:
A) INCORRETA. A personagem Clara dos Anjos não frequentava igrejas nem templos de diversas religiões. Os pais de Clara não permitiam que a menina saísse de casa desacompanhada dos pais ou da vizinha de confiança, dona Margarida. Um personagem que se sentiu atraído pela igreja luterana, liderada por Mr. Quick Shays, foi João Pintor, um vizinho de Joaquim, Pai de Clara.
B) INCORRETA. Clara não desferia provocações contra as suas vizinhas. Pelo contrário, ela se caracteriza pela ingenuidade em relação às “coisas do mundo”.
C) INCORRETA. A protagonista Clara dos Anjos não morre. Dois personagens que morrem na obra são Marramaque e Meneses.
D) INCORRETA. Clara não se casa com Cassi. Na verdade, ela é seduzida pelo malandro.
E) CORRETA. Lima Barreto sugere que a educação altamente conservadora foi crucial para que Clara se deixasse seduzir por Cassi Jones.

Q – Considere os versos da canção abaixo:
Nosso amor é mais gostoso
Nossa saudade dura mais
Nosso abraço mais apertado
Nós não usa as “bleque tais”!

O samba “Nóis não usa as bleque tais”, composto por Adoniran Barbosa e Gianfrancesco Guarnieri, serviu de trilha sonora para a peça Eles não usam black-tie (1958). A respeito do assunto, assinale a alternativa correta.
a) A escolha de um samba como trilha sonora diminuiu a contundência da crítica social pretendida pelo autor da peça, Gianfrancesco Guarnieri.
b) A diferença entre o amor “mais gostoso” e o amor de quem usa “bleque-tais”, com vantagem para o primeiro, dilui o efeito da oposição entre interesses coletivos e individuais, tema central da peça.
c) O samba, entoado na peça pelo personagem Chiquinho, colabora para a representação e valorização da cultura popular.
d) Tião, que usa “black-tie” (smoking e gravata), representa na peça o opressor, cujo poder é empregado para reprimir a greve organizada pelos moradores do morro.
e) A valorização da vida simples e a consequente rejeição da possibilidade de ascensão social conduzem aos finais trágicos de Tião e de Otávio.

Resolução:
A) INCORRETA. A denúncia social é o tema principal da peça de Guarnieri, seja no que diz respeito aos direitos da classe operária, seja no que diz respeito às condições de vida no morro.
B) INCORRETA. Não há, na peça teatral em questão, o enfraquecimento entre os interesses coletivos (simbolizado por Otávio) e os interesses individuais (simbolizado por Tião).
C) CORRETA. O gabarito da UFPR traz esse item como correto, mas, na verdade, quem entoa o samba ao longo da peça é a personagem Juvêncio, sambista que mora no morro. Chiquinho é quem comunica a Romana que Juvêncio estava triste porque alguém teria “roubado” a música de Juvêncio e gravado.
D) INCORRETA. Tião é filho de Otávio, logo, não usa “black-tie”.
E) INCORRETA. Tião e Otávio não têm finais trágicos. Tião vai embora de casa e Otávio, depois de ser solto da cadeia, acaba voltando para a casa.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
 
“Canção para álbum de moça”:
Bom-dia: eu dizia à moça
que de longe me sorria.
Bom-dia: mas da distância
ela nem me respondia.
Em vão a fala dos olhos
e dos braços repetia
bom-dia à moça que estava
de noite como de dia
bem longe de meu poder
e de meu pobre bom-dia.
Bom-dia sempre: se acaso
a resposta vier fria
ou tarde vier, contudo
esperarei o bom-dia.
E sobre casas compactas
sobre o vale e a serrania
irei repetindo manso
a qualquer hora: bom-dia.
Nem a moça põe reparo
não sente, não desconfia
o que há de carinho preso
no cerne deste bom-dia.
Bom dia: repito à tarde
à meia-noite: bom dia.
E de madrugada vou
pintando a cor de meu dia
que a moça possa encontrá-lo
azul e rosa: bom-dia.
Bom-dia: apenas um eco
na mata (mas quem diria)
decifra minha mensagem,
deseja bom o meu dia.
A moça, sorrindo ao longe
não sente, nessa alegria,
o que há de rude também
no clarão deste bom-dia.
De triste, túrbido, inquieto,
noite que se denuncia
e vai errante, sem fogos,
na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses
Ao meu bom-dia: bom-dia!
Como a noite se mudara
no mais cristalino dia!

Q – Considerando o poema acima e o livro de que ele é parte integrante – Claro Enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade –, assinale a alternativa correta.
a) O poema apresenta a esperança de interação do eu-lírico com uma moça, sem deixar de lado os sentimentos perturbadores que contrastam com a aparente alegria do emissor.
b) O poema em questão guarda semelhanças com outro poema do mesmo livro, “Tinha uma pedra no meio do caminho”, o que se observa pela insistência num só tema e pela repetição dos versos.
c) A palavra “canção”, no título, e o repetido cumprimento “bom-dia” criam uma atmosfera de leveza e romantismo presente também no poema “A mesa”, que descreve a rotina familiar.
d) Observa-se uma mudança na atitude do eu-lírico quando a moça responde a seu cumprimento: de triste e inquieto, passou a se sentir alegre e túrbido pela resposta que transformou o seu dia.
e) A cotidianidade da vida moderna se mostra nesse diálogo marcado pelo ritmo frenético dos versos futuristas e pela velocidade do eu-lírico que se desloca por um cenário urbano.

Resolução:
A) CORRETA. Veja o trecho: “A moça, sorrindo ao longe não sente, nessa alegria, o que há de rude também no clarão deste bom-dia. De triste, túrbido, inquieto, noite que se denuncia e vai errante, sem fogos, na mais louca nostalgia”.
B) INCORRETA. O poema “No Meio do Caminho” não faz parte de “Claro Enigma”. Tal poema encontra-se na obra “Alguma Poesia”.
C) INCORRETA. Atmosfera romântica não é um tema presente na obra de Drummond. Além disso, em “A Mesa” temos a simulação da festa de aniversário do pai do poeta que, na realidade, já havia falecido.
D) INCORRETA. A moça não responde ao cumprimento do eu-lírico.
E) INCORRETA. Não há tendências futuristas no poema em questão.

Q – O romance histórico A última quimera (1995), de Ana Miranda:
a) é narrado pelo poeta e cronista Olavo Bilac, o qual usa notícias de jornais cariocas para buscar fidedignidade aos fatos históricos de que trata o enredo.
b) fornece um retrato de uma geografia pouco explorada pela ficção brasileira, isto é, os subúrbios do Rio de Janeiro, estado natal de Augusto dos Anjos.
c) narra de maneira linear a vida de Augusto dos Anjos até seu sepultamento, e essa linearidade permite que o romance seja classificado como histórico.
d) cita e parafraseia textos poéticos de Augusto dos Anjos, fazendo com que sua poesia construa ideias e argumentos seus e de outros personagens.
e) parodia, nas epígrafes, trechos de crônicas de Olavo Bilac e Augusto dos Anjos, retratando de forma bem-humorada a Belle Époque tropical.

Resolução:
A) INCORRETA. O narrador da obra é um amigo de Augusto dos Anjos que não tem o seu nome revelado.
B) INCORRETA. Augusto dos Anjos não é natural do Rio de Janeiro. Ele nasceu no interior da Paraíba.
C) INCORRETA. A obra não é narrada de forma linear. A narrativa começa no dia da morte de Augusto dos Anjos e é ditada pela memória do narrador, não respeitando, a rigor, o tempo cronológico.

D) CORRETA. Trata-se de um recurso usado magistralmente pela autora da obra que, para produzi-la, se baseou, entre outros, em poemas do próprio autor e em cartas trocadas por ele.
E) INCORRETA. A única epígrafe da obra são versos de um poema de Augusto dos Anjos: “a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

Q – Sobre o Sermão de Santo Antônio aos peixes (século XVII), do Padre Antônio Vieira, assinale a alternativa correta.
a) Trata-se de um texto barroco, o que se nota pelo reaproveitamento intertextual que faz de um texto clássico, isto é, do sermão que três séculos antes o próprio Santo Antônio havia pregado.
b) O sermão é dirigido aos outros pregadores, indicando o que devem fazer para ser o sal da terra, ou seja, para que sejam eficazes em sua ação.
c) Na segunda metade do sermão, ao apontar os defeitos dos peixes, o Padre Antônio Vieira relaciona esses defeitos aos problemas das sociedades humanas.
d) Os peixes voadores são louvados no sermão, já que superam suas limitações de peixe para se levantarem o quanto possível na direção do céu, aproximando-se de Deus.
e) Vieira se refere a peixes mencionados por santos, pela Bíblia e por autores clássicos, mas não a peixes da costa brasileira, o que denota seu desinteresse por temas locais.

Resolução:
A) INCORRETA. O sermão de Vieira não se baseia num texto clássico. A inspiração de Antônio Vieira foi um fato atribuído a Santo Antônio, na cidade de Arimino, na Itália, onde ele desistiu de levar suas pregações aos homens e passou a pregar aos peixes, que vieram ouvi-lo, causando assombro nos hereges da cidade.
B) INCORRETA. Esse item pode ter confundido alguns candidatos. Na verdade, apenas a 1ª parte do sermão é dirigida aos pregadores. No geral, o sermão é dirigido aos colonos do Maranhão, local onde o sermão foi pregado por Padre Vieira.
C) CORRETA. Vieira se utiliza de um recurso alegórico: assim como as qualidades dos peixes são as qualidades dos homens (1ª metade) os defeitos dos peixes, por extensão, são os defeitos dos homens (2ª metade).
D) INCORRETA. O peixe voador é repreendido, pois, acreditando ser uma ave, ele acredita que pode voar. Alegoricamente, Vieira sugere que o peixe voador representa os ambiciosos que querem se tornar e/ou ter uma vida como a daqueles que não podem ser/ter.
E) INCORRETA. O peixe quatro-olhos é um peixe da região do Pará, mencionado por Vieira na parte III do seu sermão. O único peixe bíblico citado pelo autor é o Peixe de Tobias (também na parte III). Não há citação de peixes mencionados por autores clássicos. Vieira utiliza os clássicos como referenciais para sustentar algumas de suas argumentações apresentadas ao longo de seu sermão.

 










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