49
- O romance A última Quimera, de Ana Miranda, publicado em 1995, elege
como personagem principal o poeta Augusto dos Anjos (1884-1914), inscrevendo-se
na linha de ficcionalização da história literária, modalidade bastante
frequentada na passagem do século XX para o XXI. A propósito dessa obra,
assinale a alternativa correta.
a) Os
versos de Augusto dos Anjos que contêm a expressão do título do romance são
registrados em epígrafe, de modo que o leitor estabeleça o diálogo entre os
textos desde o início.
b) A
cena literária da capital brasileira à época constitui o pano de fundo em que
transcorre a vida e acontece a morte do poeta que se celebrizou pela temática
mórbida.
c)
Augusto dos Anjos e o narrador almejam compor poemas seguindo o modelo estético
de Olavo Bilac, padrão da poética da época, figurando também como personagem do
romance.
►d) O
narrador, também poeta, é contemporâneo e conterrâneo de Augusto dos Anjos,
situação que determina uma relação que, da parte do narrador, oscila entre a
amizade terna e a disputa.
e) O recurso narrativo
empregado no romance é o simulacro do discurso biográfico, seguindo o percurso
do poeta em linha cronológica, do nascimento à morte.
Resolução:
a) O
livro não possui epígrafe.
b)
Augusto dos Anjos morreu em Leopoldina/MG.
c) A
poesia de Augusto dos Anjos não segue, à risca, os padrões parnasianos, estilo
de Olavo Bilac. Quanto ao narrador, não nos é revelado o estilo de poesia dele.
d) CORRETA:
A amizade está relacionada à figura de Augusto dos Anjos; a disputa, à figura
de Esther, mulher do amigo.
e) O
recurso narrativo não é, necessariamente, cronológico; além disso, a obra se
inicia na data de morte de Augusto dos Anjos.
50
- Acerca dos personagens de Fogo morto, considere as afirmativas abaixo:
1.
O mestre José Amaro é um homem pobre que vive no Santa Fé, mas não é empregado
lá, trabalha por conta própria, o que não faz dele um homem independente, já
que o proprietário exige que ele saia da casa que ocupa no engenho.
2.
O coronel Lula de Holanda faz parte de uma longa linhagem de senhores de
engenho, donos há gerações do engenho Santa Fé que, ao final do romance, estará
de fogo morto.
3.
Apesar da distância social que as separa, tanto a filha de José Amaro quanto a
do coronel Lula de Holanda vivem em isolamento e terminam por enlouquecer.
4.
O capitão Vitorino Carneiro da Cunha grita o tempo todo que é um homem que não
se submete ao poder de ninguém, mas na verdade cede ao comando do cangaceiro, o
capitão Antônio Silvino.
Assinale
a alternativa correta.
►a)
Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.
b)
Somente as afirmativas 1, 2 e 3 são verdadeiras.
c)
Somente as afirmativas 2 e 4 são verdadeiras.
d)
Somente a afirmativa 3 é verdadeira.
e)
Somente a afirmativa 4 é verdadeira.
Resolução:
1
– CORRETA
2
– Lula não faz parte de uma linhagem de senhores de engenho: ele se casa com a
filha do Capitão Tomás, Amélia. Com a morte de Tomás, ele assume a direção do
engenho.
3
– CORRETA.
4
– Quem se comporta de tal forma é Mestre Amaro, não o Coronel Lula.
51
- Leia o trecho abaixo, do capítulo XII de Inocência, do Visconde de
Taunay. Trata-se de um diálogo entre o pai de Inocência, Pereira, e o médico
ambulante, Cirino, sobre o naturalista alemão, Meyer.
—Nem
sei como me contenha... Estou cego de raiva... Que presente me mandou o
Chico!... É uma peste, este diabo melado... Vê uma rapariguinha e enche logo as
bochechas para lhe dizer meia dúzia de pachuchadas e graçolas... Não está má
esta!... É um perdido. Nada... Isto não me cheira bem: vou ficar de olho
nele...
—Faz
muito bem, apoiou Cirino.
—Vejam
só, continuou Pereira retendo o seu interlocutor para deixar Meyer
distanciar-se, em boas me fui eu meter! ... Se não fosse a tal carta do mano, o
cujo dançava ao som do cacete... Malcriadaço! Uma mulher que daqui a dois dias
está para receber marido... Deus nos livre que o Manecão o ouvisse...
Desancava-o logo, se não o cosesse a facadas... Vejam só, hem?... Sempre é
gente de outras terras... Cruz! Também vi logo... um latagão bonito... todo
faceiro... havera por força de ser rufião.
(Visconde
de Taunay, Inocência. São Paulo: FTD, 1992, p. 87)
Assinale
a alternativa correta.
a)
Cirino discorda de Pereira, pois tem opinião muito diferente dele sobre as
mulheres, mas o apoia porque foi hospedado por ele e depende de sua proteção.
b)
A desconfiança de Pereira em relação a Meyer tem fundamento, pois o alemão se
vê como um ser superior aos sertanejos e acha que todas as moças dali se
apaixonarão por ele.
►c)
As ameaças violentas feitas por Pereira em razão da honra da filha acabam se
concretizando, mas não será Meyer que sofrerá essa violência.
d)
Manecão é um velho capanga de Pereira que conhece Inocência desde que a menina
nasceu e lhe é inteiramente dedicado, por isso seria violento diante de um
desrespeito a ela.
e)
O casamento próximo de Inocência, dali a dois dias, torna os ânimos mais
exaltados, por isso Pereira fica tão irritado com Meyer.
Resolução:
a)
Cirino “apoia” Pereira em função do interesse que ele, Cirino, tem por
Inocência.
b)
Meyer não se comporta de forma “superior” nem acha que todas as mulheres da região
são apaixonadas por ele.
c)
CORRETO: Atenção para o trecho “Deus nos livre que o Manecão o ouvisse...
Desancava-o logo, se não o cosesse a facadas...”
d)
Manecão é o noivo de Inocência.
e)
A expressão “daqui a dois dias” está sendo usada, aqui, em sentido conotativo
(figurado), não no sentido denotativo (real).
52
- Sobre os romances Lucíola, de José de Alencar, e Bom-Crioulo,
de Adolfo Caminha, considere as seguintes afirmativas:
1.
Nos dois romances, os nomes dos protagonistas são significativos: Lúcia,
pseudônimo adotado pela brilhante cortesã, ofusca a pureza perdida de Maria da
Glória; já no caso de Amaro, o apelido Bom-Crioulo é irônico, salientando o
viés negativo adotado na caraterização dessa personagem.
2.
Em Lucíola, busca-se legitimar o comportamento sexual da protagonista
por meio de uma motivação ajustada à moralidade burguesa do século XIX: Lúcia
inicia-se na prostituição por conta de sua ingenuidade e desamparo, tentando
salvar a própria família da miséria extrema.
3.
Bom-Crioulo estabelece paralelos entre o cativeiro da escravidão e
aquele representado pela atração de Amaro por Aleixo: seja na cena do castigo
físico a que Amaro é submetido no primeiro capítulo, seja nas agruras da
personagem título quando, transferido de embarcação, se vê afastado de Aleixo.
4.
A despeito das diferenças entre Romantismo e Naturalismo, no que se refere ao
tratamento das cenas de intimidade sexual, ambos os romances adotam um tom
sóbrio, com vocabulário discreto que evita expressões grosseiras de modo a
ajustar-se às expectativas do público de seu tempo.
Assinale
a alternativa correta.
a)
Somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras.
►b)
Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.
c)
Somente as afirmativas 1, 2 e 3 são verdadeiras.
d)
Somente as afirmativas 3 e 4 são verdadeiras.
e)
As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras.
Resolução:
1
– Lúcia é o nome de uma jovem prostituta que dividia o quarto com Maria da
Glória, no início de seu infortúnio; Bom-Crioulo não é um apelido irônico.
2
– CORRETO
3
– CORRETO. Amaro considera-se “preso” a Aleixo. Esse item causou muitas dúvidas
para os candidatos, pois Amaro sentia-se livre na corveta, diferentemente do
que acontecia na fazenda de onde fugira para ingressar na Marinha. O candidato
chegaria à resposta por eliminação dos itens 2 e 4.
4
– O tom sóbrio é mostrado apenas em Lucíola; em Bom-Crioulo adota-se uma
postura mais agressiva por parte do narrador da obra.
53
- A primeira representação de Os dois ou o inglês maquinista aconteceu
no Rio de Janeiro, capital do império, em 1845. Sobre essa comédia, considere
as seguintes afirmativas:
1.
O negociante de escravos, o especulador inglês, o combatente da revolta no sul
do país, a viúva preocupada em casar bem a filha são exemplos de personagens
que retratam tipos característicos da sociedade da época, construídos por Martins
Pena com grande densidade e aprofundamento psicológico.
2.
Os diálogos vivos e cômicos são resultado de um cuidadoso trabalho no uso de
linguagem coloquial, de falas simultâneas e entrecortadas, do xingamento em
língua estrangeira (goddam), da exploração do som do francês (cou) em português
e da fala caricata do inglês, que não conjuga os verbos e não faz distinção de
gênero.
3.
Contemporâneo das primeiras publicações do romantismo brasileiro (O moço
loiro, Joaquim Manuel de Macedo, 1845; Primeiros Cantos, Gonçalves
Dias, 1846), Martins Pena imprime a marca do estilo da época na sua peça,
visível na idealização do amor e da pureza nos namoros da personagem Cecília.
4.
Embora a proibição do comércio negreiro seja um contexto fundamental, os
escravos não têm fala na peça. A realidade dos negros, no entanto, transparece
de forma clara quando um meia-cara é entregue em um cesto como presente e no
momento em que as chicotadas na escrava são tratadas como um fato tão natural
que não chega a interromper a conversa com as visitas.
5.
A comédia de costumes de Martins Pena retoma alguns temas recorrentes na poesia
satírica de Gregório de Mattos – funcionários corruptos, leis burladas como
normalidade, dinheiro como móvel da sociedade – aproximando a sociedade
pós-independência do século XIX da sociedade colonial do século XVII.
Assinale
a alternativa correta.
a)
Somente as afirmativas 3 e 4 são verdadeiras.
b)
Somente as afirmativas 1, 4 e 5 são verdadeiras.
c)
Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.
d)
Somente as afirmativas 1 e 5 são verdadeiras.
►e)
Somente as afirmativas 2, 4 e 5 são verdadeiras.
Resolução:
1
– Não há na peça a figura do “combatente” e, muito menos, aprofundamento psicológico.
2
– CORRETO.
há
vários estrangeirismos nos diálogos da peça.
3
– A personagem Cecília é bastante “atrevida” para a sua época, no que diz
respeito aos namoros.
4
– CORRETO.
5
– CORRETO. Excelente aproximação com a obra de Gregório de Matos. Alertamos, em
sala, para a temática racial presente em várias das obras indicadas e que
poderiam aparecer de forma “cruzada” na prova.
54
- Leia atentamente o poema:
Soneto
Carregado
de mim ando no mundo,
E
o grande peso embarga-me as passadas,
Que
como ando por vias desusadas,
Faço
o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O
remédio será seguir o imundo
Caminho,
onde dos mais vejo as pisadas,
Que
as bestas andam juntas mais ousadas,
Do
que anda o engenho mais profundo.
Não
é fácil viver entre os insanos,
Erra,
quem presumir que sabe tudo,
Se
o atalho não soube dos seus danos.
O
prudente varão há de ser mudo,
Que
é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser
louco c’os demais, que só, sisudo.
A
poesia satírica de Gregório de Matos emprega modelos e procedimentos variados.
José Miguel Wisnik indica que ela pode ser entendida como “uma luta cômica
entre duas sociedades, uma normal e outra absurda”. (WISNIK,
J. M. “Prefácio”. Poemas escolhidos de Gregório de Matos. São Paulo:
Companhia das Letras, 2012, p.23). Com base nisso, é correto dizer que este
soneto:
►a)
apresenta a imagem de um “mundo às avessas”, em que a maioria aceita a
sociedade absurda como se fosse a ideal.
b)
desenha a sociedade ideal e utópica, que deverá ser alcançada no futuro.
c)
explora a dualidade conflituosa entre corpo e espírito e associa a vertente
satírica à sacro-religiosa.
d)
apresenta um sujeito poético “sisudo e só”, o que retira do soneto o tom cômico
que caracteriza a sátira
e)
apresenta a crítica aberta e racional como solução para o estado insano do
mundo.
Resolução:
a)
CORRETO: A inversão de valores é um dos temas recorrentes da poética satírica do
Boca do Inferno.
b)
Utopia e idealização não são temas de Gregório de Matos.
c)
Não há esse tipo de aproximação no soneto em questão.
d)
A sátira se faz presente no tom crítico e no discurso ferino do sujeito “sisudo
e só”.
e)
Por se tratar de um soneto barroco, o termo “racional” não se aplica a tal
estética artística.