segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Resolução prova de Literatura UFPR 2013/2014

Resolução prova de Literatura UFPR 2013/2014 pelo professor Gilberto Rocha (Giba)
49 - O romance A última Quimera, de Ana Miranda, publicado em 1995, elege como personagem principal o poeta Augusto dos Anjos (1884-1914), inscrevendo-se na linha de ficcionalização da história literária, modalidade bastante frequentada na passagem do século XX para o XXI. A propósito dessa obra, assinale a alternativa correta.

a) Os versos de Augusto dos Anjos que contêm a expressão do título do romance são registrados em epígrafe, de modo que o leitor estabeleça o diálogo entre os textos desde o início.

b) A cena literária da capital brasileira à época constitui o pano de fundo em que transcorre a vida e acontece a morte do poeta que se celebrizou pela temática mórbida.

c) Augusto dos Anjos e o narrador almejam compor poemas seguindo o modelo estético de Olavo Bilac, padrão da poética da época, figurando também como personagem do romance.

►d) O narrador, também poeta, é contemporâneo e conterrâneo de Augusto dos Anjos, situação que determina uma relação que, da parte do narrador, oscila entre a amizade terna e a disputa.

e) O recurso narrativo empregado no romance é o simulacro do discurso biográfico, seguindo o percurso do poeta em linha cronológica, do nascimento à morte.

Resolução:

a) O livro não possui epígrafe.

b) Augusto dos Anjos morreu em Leopoldina/MG.

c) A poesia de Augusto dos Anjos não segue, à risca, os padrões parnasianos, estilo de Olavo Bilac. Quanto ao narrador, não nos é revelado o estilo de poesia dele.

d) CORRETA: A amizade está relacionada à figura de Augusto dos Anjos; a disputa, à figura de Esther, mulher do amigo.

e) O recurso narrativo não é, necessariamente, cronológico; além disso, a obra se inicia na data de morte de Augusto dos Anjos.


50 - Acerca dos personagens de Fogo morto, considere as afirmativas abaixo:

1. O mestre José Amaro é um homem pobre que vive no Santa Fé, mas não é empregado lá, trabalha por conta própria, o que não faz dele um homem independente, já que o proprietário exige que ele saia da casa que ocupa no engenho.

2. O coronel Lula de Holanda faz parte de uma longa linhagem de senhores de engenho, donos há gerações do engenho Santa Fé que, ao final do romance, estará de fogo morto.

3. Apesar da distância social que as separa, tanto a filha de José Amaro quanto a do coronel Lula de Holanda vivem em isolamento e terminam por enlouquecer.

4. O capitão Vitorino Carneiro da Cunha grita o tempo todo que é um homem que não se submete ao poder de ninguém, mas na verdade cede ao comando do cangaceiro, o capitão Antônio Silvino.

Assinale a alternativa correta.

►a) Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.

b) Somente as afirmativas 1, 2 e 3 são verdadeiras.

c) Somente as afirmativas 2 e 4 são verdadeiras.

d) Somente a afirmativa 3 é verdadeira.

e) Somente a afirmativa 4 é verdadeira.


Resolução:

1 – CORRETA

2 – Lula não faz parte de uma linhagem de senhores de engenho: ele se casa com a filha do Capitão Tomás, Amélia. Com a morte de Tomás, ele assume a direção do engenho.

3 – CORRETA.

4 – Quem se comporta de tal forma é Mestre Amaro, não o Coronel Lula.


51 - Leia o trecho abaixo, do capítulo XII de Inocência, do Visconde de Taunay. Trata-se de um diálogo entre o pai de Inocência, Pereira, e o médico ambulante, Cirino, sobre o naturalista alemão, Meyer.

—Nem sei como me contenha... Estou cego de raiva... Que presente me mandou o Chico!... É uma peste, este diabo melado... Vê uma rapariguinha e enche logo as bochechas para lhe dizer meia dúzia de pachuchadas e graçolas... Não está má esta!... É um perdido. Nada... Isto não me cheira bem: vou ficar de olho nele...

—Faz muito bem, apoiou Cirino.

—Vejam só, continuou Pereira retendo o seu interlocutor para deixar Meyer distanciar-se, em boas me fui eu meter! ... Se não fosse a tal carta do mano, o cujo dançava ao som do cacete... Malcriadaço! Uma mulher que daqui a dois dias está para receber marido... Deus nos livre que o Manecão o ouvisse... Desancava-o logo, se não o cosesse a facadas... Vejam só, hem?... Sempre é gente de outras terras... Cruz! Também vi logo... um latagão bonito... todo faceiro... havera por força de ser rufião.

(Visconde de Taunay, Inocência. São Paulo: FTD, 1992, p. 87)

Assinale a alternativa correta.

a) Cirino discorda de Pereira, pois tem opinião muito diferente dele sobre as mulheres, mas o apoia porque foi hospedado por ele e depende de sua proteção.

b) A desconfiança de Pereira em relação a Meyer tem fundamento, pois o alemão se vê como um ser superior aos sertanejos e acha que todas as moças dali se apaixonarão por ele.

►c) As ameaças violentas feitas por Pereira em razão da honra da filha acabam se concretizando, mas não será Meyer que sofrerá essa violência.

d) Manecão é um velho capanga de Pereira que conhece Inocência desde que a menina nasceu e lhe é inteiramente dedicado, por isso seria violento diante de um desrespeito a ela.

e) O casamento próximo de Inocência, dali a dois dias, torna os ânimos mais exaltados, por isso Pereira fica tão irritado com Meyer.


Resolução:

a) Cirino “apoia” Pereira em função do interesse que ele, Cirino, tem por Inocência.

b) Meyer não se comporta de forma “superior” nem acha que todas as mulheres da região são apaixonadas por ele.

c) CORRETO: Atenção para o trecho “Deus nos livre que o Manecão o ouvisse... Desancava-o logo, se não o cosesse a facadas...”

d) Manecão é o noivo de Inocência.

e) A expressão “daqui a dois dias” está sendo usada, aqui, em sentido conotativo (figurado), não no sentido denotativo (real).


52 - Sobre os romances Lucíola, de José de Alencar, e Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, considere as seguintes afirmativas:

1. Nos dois romances, os nomes dos protagonistas são significativos: Lúcia, pseudônimo adotado pela brilhante cortesã, ofusca a pureza perdida de Maria da Glória; já no caso de Amaro, o apelido Bom-Crioulo é irônico, salientando o viés negativo adotado na caraterização dessa personagem.

2. Em Lucíola, busca-se legitimar o comportamento sexual da protagonista por meio de uma motivação ajustada à moralidade burguesa do século XIX: Lúcia inicia-se na prostituição por conta de sua ingenuidade e desamparo, tentando salvar a própria família da miséria extrema.

3. Bom-Crioulo estabelece paralelos entre o cativeiro da escravidão e aquele representado pela atração de Amaro por Aleixo: seja na cena do castigo físico a que Amaro é submetido no primeiro capítulo, seja nas agruras da personagem título quando, transferido de embarcação, se vê afastado de Aleixo.

4. A despeito das diferenças entre Romantismo e Naturalismo, no que se refere ao tratamento das cenas de intimidade sexual, ambos os romances adotam um tom sóbrio, com vocabulário discreto que evita expressões grosseiras de modo a ajustar-se às expectativas do público de seu tempo.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras.

►b) Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.

c) Somente as afirmativas 1, 2 e 3 são verdadeiras.

d) Somente as afirmativas 3 e 4 são verdadeiras.

e) As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras.


Resolução:

1 – Lúcia é o nome de uma jovem prostituta que dividia o quarto com Maria da Glória, no início de seu infortúnio; Bom-Crioulo não é um apelido irônico.

2 – CORRETO

3 – CORRETO. Amaro considera-se “preso” a Aleixo. Esse item causou muitas dúvidas para os candidatos, pois Amaro sentia-se livre na corveta, diferentemente do que acontecia na fazenda de onde fugira para ingressar na Marinha. O candidato chegaria à resposta por eliminação dos itens 2 e 4.

4 – O tom sóbrio é mostrado apenas em Lucíola; em Bom-Crioulo adota-se uma postura mais agressiva por parte do narrador da obra.


53 - A primeira representação de Os dois ou o inglês maquinista aconteceu no Rio de Janeiro, capital do império, em 1845. Sobre essa comédia, considere as seguintes afirmativas:

1. O negociante de escravos, o especulador inglês, o combatente da revolta no sul do país, a viúva preocupada em casar bem a filha são exemplos de personagens que retratam tipos característicos da sociedade da época, construídos por Martins Pena com grande densidade e aprofundamento psicológico.

2. Os diálogos vivos e cômicos são resultado de um cuidadoso trabalho no uso de linguagem coloquial, de falas simultâneas e entrecortadas, do xingamento em língua estrangeira (goddam), da exploração do som do francês (cou) em português e da fala caricata do inglês, que não conjuga os verbos e não faz distinção de gênero.

3. Contemporâneo das primeiras publicações do romantismo brasileiro (O moço loiro, Joaquim Manuel de Macedo, 1845; Primeiros Cantos, Gonçalves Dias, 1846), Martins Pena imprime a marca do estilo da época na sua peça, visível na idealização do amor e da pureza nos namoros da personagem Cecília.

4. Embora a proibição do comércio negreiro seja um contexto fundamental, os escravos não têm fala na peça. A realidade dos negros, no entanto, transparece de forma clara quando um meia-cara é entregue em um cesto como presente e no momento em que as chicotadas na escrava são tratadas como um fato tão natural que não chega a interromper a conversa com as visitas.

5. A comédia de costumes de Martins Pena retoma alguns temas recorrentes na poesia satírica de Gregório de Mattos – funcionários corruptos, leis burladas como normalidade, dinheiro como móvel da sociedade – aproximando a sociedade pós-independência do século XIX da sociedade colonial do século XVII.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente as afirmativas 3 e 4 são verdadeiras.

b) Somente as afirmativas 1, 4 e 5 são verdadeiras.

c) Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.

d) Somente as afirmativas 1 e 5 são verdadeiras.

►e) Somente as afirmativas 2, 4 e 5 são verdadeiras.


Resolução:

1 – Não há na peça a figura do “combatente” e, muito menos, aprofundamento psicológico.

2 – CORRETO. Á



há vários estrangeirismos nos diálogos da peça.

3 – A personagem Cecília é bastante “atrevida” para a sua época, no que diz respeito aos namoros.

4 – CORRETO.

5 – CORRETO. Excelente aproximação com a obra de Gregório de Matos. Alertamos, em sala, para a temática racial presente em várias das obras indicadas e que poderiam aparecer de forma “cruzada” na prova.


54 - Leia atentamente o poema:

Soneto

Carregado de mim ando no mundo,

E o grande peso embarga-me as passadas,

Que como ando por vias desusadas,

Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.


O remédio será seguir o imundo

Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,

Que as bestas andam juntas mais ousadas,


Do que anda o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,

Erra, quem presumir que sabe tudo,

Se o atalho não soube dos seus danos.


O prudente varão há de ser mudo,

Que é melhor neste mundo, mar de enganos,

Ser louco c’os demais, que só, sisudo.

A poesia satírica de Gregório de Matos emprega modelos e procedimentos variados. José Miguel Wisnik indica que ela pode ser entendida como “uma luta cômica entre duas sociedades, uma normal e outra absurda”. (WISNIK, J. M. “Prefácio”. Poemas escolhidos de Gregório de Matos. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.23). Com base nisso, é correto dizer que este soneto:

►a) apresenta a imagem de um “mundo às avessas”, em que a maioria aceita a sociedade absurda como se fosse a ideal.

b) desenha a sociedade ideal e utópica, que deverá ser alcançada no futuro.

c) explora a dualidade conflituosa entre corpo e espírito e associa a vertente satírica à sacro-religiosa.

d) apresenta um sujeito poético “sisudo e só”, o que retira do soneto o tom cômico que caracteriza a sátira

e) apresenta a crítica aberta e racional como solução para o estado insano do mundo.  


Resolução:

a) CORRETO: A inversão de valores é um dos temas recorrentes da poética satírica do Boca do Inferno.

b) Utopia e idealização não são temas de Gregório de Matos.

c) Não há esse tipo de aproximação no soneto em questão.

d) A sátira se faz presente no tom crítico e no discurso ferino do sujeito “sisudo e só”.

e) Por se tratar de um soneto barroco, o termo “racional” não se aplica a tal estética artística.

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