segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Resolução da Prova de Literatura Brasileira UFPR 2019/2020




Por conta do tamanho, não consegui postar o enunciado das questões. Por favor, acesse a prova original aqui:



QUESTÃO 49:
Resolução:
a) A religiosidade cristã católica não transforma os homens e a natureza a partir da ação direta de Deus. Ademais, essa temática não faz parte de Sarapalha.
b) As aliterações neste trecho simulam os tremores oriundos da febre que acomete os personagens Ribeiro e Argemiro.
c) O pitoresco do sertão interessa menos ao autor do que a dimensão mítica desse espaço. Além disso, a ambientação situada num local decadente, metaforiza a decadência física dos primos doentes.
d) Correta.
e) Apesar de ser um tema presente em alguns contos de Sagarana, o duelo não é tematizado em Sarapalha. 


QUESTÃO 50:
Resolução:
1 – Verdadeira.
2 – Verdadeira.
3 – Verdadeira.
4 – A expressão “tornam” passa a ideia de uma sucessão de eventos temporais que se repetem e podem ser associados às estações do ano. Entretanto, essa mesma temática não é desenvolvida na estrofe seguinte.
5 – O poema O Gigante de Pedra não aborda um episódio datado; o poema épico O Uraguai, sim.


 
QUESTÃO 51:
Resolução:
O único item que satisfaz o enunciado é o B. Além disso, os itens C e D trazem trechos da obra Clara dos Anjos e não, Casa de Pensão.



QUESTÃO 52:
Resolução:
A ideia de “utopismo romântico”, sugerida no texto de apoio, remete à temática da idealização, característica típica da literatura romântica, da qual Gonçalves Dias é representante. A única alternativa que satisfaz o enunciado formulado pela UFPR é a letra E. As demais proposições apresentam aspectos reais, concretos, ou seja, não idealizados dos elementos indígenas.


QUESTÃO 53:
Resolução:
a) Não se pode deduzir na obra que Severino seja um sujeito ignorante. Tanto é que ele opta por sair do interior de Pernambuco e migrar para a capital afim de melhorar sua condição de vida, mostrando-se consciente do ponto de vista social. Além disso, a expressão “lamparina”, no treco em questão, aparece em seu sentido conotativo.
b) A religiosidade é um elemento muito forte na cultura sertaneja. Em vários momentos Severino se depara com ela, como no encontro com os irmãos das almas ou na cena em que se cantam excelências para um defunto. Vide ainda, sobre o tema, outra obra constante na lista de leituras obrigatórias: Sagarana, de Guimarães Rosa.
c) Correta.
d) O desfecho da peça de João Cabral de Melo Neto é otimista, mesmo havendo uma série de dificuldades para a vida que insiste em se renovar, o que invalida a afirmativa proposta no enunciado.
e) Severino não se suicida ao final das ações.


QUESTÃO 54:
Resolução:
1 – Verdadeira.
2 – Dorner é o fotógrafo alemão, amigo da família de Emilie.
3 – O julgamento de Dorner é procedente, tanto que um dos motivos que fazem Hakim sair de casa é o apontado no trecho da obra fornecido na questão.
4 – Embora não se possa precisar com exatidão a época em que as ações são narradas, em virtude da predominância do tempo psicológico, elas acontecem no século XX, conforme atesta o trecho retirado do capítulo 1, em que a narradora se dirige ao irmão, que está em Barcelona: “... quem sabe se também pensando em mim, na minha passagem pelo espaço da nossa infância: cidade imaginária, fundada numa manhã de 1954...”


domingo, 21 de outubro de 2018

Resolução da prova de Literatura Brasileira da UFPR 2018/2019 (21/10/18)


Q – Segundo Antonio Candido:
Gonçalves Dias é um grande poeta, em parte por encontrar na poesia o veículo natural para a sensação de deslumbramento ante o Novo Mundo [...]. O seu verso, incorporando o detalhe pitoresco da vida americana ao ângulo romântico e europeu de visão, criou (verdadeiramente criou) uma convenção poética nova. Esse cocktail de medievismo, idealismo e etnografia fantasiada nos aparece como construção lírica e heroica, de que resulta uma composição nova para sentirmos os velhos temas da poesia ocidental.
(Formação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Itatiaia (8. ed.) vol. 2, 1975, p. 73.)
Considerando o trecho citado e a leitura integral do livro Últimos Cantos, de Gonçalves Dias, assinale a alternativa correta.
►a) A representação dos povos indígenas descreve as tradições coletivas dessas comunidades, mas pode, por vezes, apresentar os sentimentos individuais e particulares de alguns de seus membros.
b) Gonçalves Dias demonstra em sua poesia americana o interesse de se distanciar da tradição indianista, apresentando temas universais, nos quais o gosto pelo exótico e pela tematização do nacional não deveria predominar.
c) A tematização da miscigenação entre índios e brancos é considerada prejudicial, uma vez que apagaria os traços próprios da cultura indígena que deveriam ser preservados.
d) O emprego exclusivo de poemas narrativos longos demonstra que o livro pretende ser uma epopeia que cultua os valores heroicos e descarta a expressão lírica amorosa.
e) A diversidade de temas e de modelos formais se contrapõe ao emprego da mesma medida métrica em todos os poemas.

Resolução:
A) CORRETA. Os sentimentos individuais constituem marca registrada da literatura romântica, da qual Gonçalves Dias é um de seus expoentes. Como exemplo, Leito de Folhas Verdes e Marabá. Quanto às tradições associar aos poemas I-Juca Pirama e Canção do Tamoio, por exemplo.
B) INCORRETA. Os temas universais aparecem em Poesias Diversas. As Poesias Americanas abordam, entre outros, a cor local típica do romantismo.
C) INCORRETA. Esse assunto é abordado em Marabá, porém, o autor não sugere que tal miscigenação seria prejudicial.
D) INCORRETA. O livro traz poemas curtos e não descarta a expressão lírica amorosa, em especial nos poemas de Poesias Diversas, como Olhos Verdes, por exemplo.
E) INCORRETA. O autor se vale de várias medidas métricas, variando-as, inclusive conforme as circunstâncias do texto.

Q – O Uraguai foi publicado pela primeira vez antes da independência do Brasil, em 1769, e narra as disputas entre espanhóis e portugueses pelos territórios do sul do continente, envolvendo os índios e os jesuítas. No fragmento abaixo, podemos conferir um trecho da fala do comandante português:
O nosso último rei e o rei de Espanha
Determinaram por cortar de um golpe,
Como sabeis, neste ângulo da terra,
As desordens de povos confinantes,
Que mais certos sinais nos dividissem.
(GAMA, Basílio da. “Canto Primeiro”. O Uraguai. Porto Alegre: L&PM, 2009, p. 47.)

O talento de Basílio da Gama, que transforma o árido assunto em matéria literária, recebe, cem anos depois, o elogio de Machado de Assis. Ao compará-lo com seu contemporâneo, Tomás Antônio Gonzaga, o escritor afirma: “Não lhe falta, também a ele, nem sensibilidade, nem estilo, que em alto grau possui; a imaginação é grandemente superior à de Gonzaga, e quanto à versificação nenhum outro, em nossa língua, a possui mais harmoniosa e pura” (MACHADO DE ASSIS. A nova geração. In. Obras completas. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1973. p.815).
Sobre o poema de Basílio da Gama, considere as seguintes afirmativas:
1. O contexto histórico trabalhado no poema de Basílio da Gama é fundamental para o seu entendimento: a descentralização do poder colonial, protagonizada pelo Marquês de Pombal, e a disputa de territórios coloniais entre Espanha e Portugal, mediada e pacificada pelos jesuítas, na segunda metade do século XVIII.
2. Ao longo dos cinco cantos de O Uraguai, compostos em decassílabos sem rima, podemos perceber a marca da epopeia, na narração da guerra e dos feitos dos heroicos portugueses, e a presença da sátira, na caricatura dos jesuítas, particularmente na figura do Padre Balda.
3. O grande destaque dado aos índios e à defesa da sua terra, a exaltação lírica da natureza e a centralidade do par amor/morte, presente na relação de Lindoia e Cacambo, deram ao poema de Basílio da Gama o lugar de inaugurador do romantismo em todos os manuais de história da literatura brasileira.
4. Para narrar acontecimentos reais da ação de portugueses e espanhóis na disputa dos territórios delimitados pelo rio Uruguai, que hoje correspondem ao noroeste do Rio Grande do Sul e ao norte da Argentina, Basílio da Gama toma o cuidado de inserir apenas personagens ficcionais no seu poema, para não se comprometer.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente a afirmativa 1 é verdadeira.
►b) Somente a afirmativa 2 é verdadeira.
c) Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.
d) Somente as afirmativas 1, 3 e 4 são verdadeiras.
e) As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras.

Resolução:
1 – INCORRETA. Os jesuítas são ridicularizados no poema. Além disso, não há a pacificação do conflito, haja vista que a guerra ocorre por não haver acordo entre os índios e o exército luso-espanhol.
2 – CORRETA.
3 – INCORRETA. A obra é considerada precursora do Romantismo, porém, situa-se no Arcadismo. A primeira obra romântica de nossa literatura é Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães.
4 – INCORRETA. O conflito se passa nos territórios de Brasil e Uruguai.

Q – Escritores de uma nova geração, Milton Hatoum (nascido em 1952) e Bernardo Carvalho (nascido em 1960) já garantiram seu lugar no panorama multifacetado da literatura brasileira contemporânea. Relato de um certo oriente, publicado em 1989, marcou a estreia de Milton Hatoum na literatura. Nove noites, publicado em 2002, é o sétimo livro lançado por Bernardo Carvalho, que estreou na literatura em 1993 com o livro de contos Aberração.
A respeito das comparações entre Relato de um certo oriente e Nove noites, considere as seguintes afirmativas:
1. Milton Hatoum consegue trazer para a sua ficção o espaço amazonense sem cair no exagero do exotismo; Bernardo Carvalho, por sua vez, tensiona o realismo pela inclusão, na ficção, de fatos e personagens históricos, autobiografia e experiências pessoais.
2. Através de estratégias diferentes, os dois romances buscam compreender o passado, conscientes da obrigação histórica de recuperá-lo tal como aconteceu: Relato de um certo oriente resgata a memória trágica de uma família que viveu em Manaus; Nove noites investiga a morte de um antropólogo no sul do Maranhão, para entregar ao leitor a solução de um mistério até então não resolvido.
3. A epígrafe de W.H. Auden – “Que a memória refaça/A praia e os passos/O rosto e o ponto do encontro” (em tradução de Sandra Stroparo e Caetano Galindo) – anuncia o elemento central da narrativa de Milton Hatoum. O título do romance de Bernardo Carvalho se refere às nove noites que o antropólogo Buell Quain passou na companhia de Manoel Perna, durante a sua estada entre os índios Krahô.
4. O tratamento dado aos nativos em Relato de um certo oriente pode ser verificado na humilhação e nos abusos sofridos pelas caboclas e índias que trabalhavam na casa de Emilie, principalmente por parte dos dois “inomináveis”. Em Nove noites, a narração do jornalista volta a momentos centrais da história do Brasil no século XX – Estado Novo, Ditadura Militar e Período Democrático –, marcando a situação de vulnerabilidade permanente dos índios num mundo de brancos.
5. Na Manaus multicultural da primeira metade do século XX, Emilie e seus filhos, com a curiosidade natural do imigrante, atravessam constantemente o rio que separa a cidade da floresta. Da mesma forma, o narrador-jornalista de Nove noites visita inúmeras vezes os índios Krahô, em busca de informações sobre o suicídio de Buell Quain.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras
b) Somente as afirmativas 2 e 5 são verdadeiras
►c) Somente as afirmativas 1, 3 e 4 são verdadeiras
d) Somente as afirmativas 2, 3 e 5 são verdadeiras
e) As afirmativas 1, 2, 3, 4 e 5 são verdadeiras.

Resolução:
1 – CORRETA. No caso de Bernardo Carvalho temos a metaficção (quando há a fusão entre fatos reais e ficcionais).
2 – INCORRETA. Não há preocupação histórica em Relato... e não há a solução para a morte de Quain em Nove Noites.
3 – CORRETA.
4 – CORRETA.
5 – INCORRETA. Não há relatos de que Emilie e seus filhos transpusesses as águas do Rio Negro; em Nove Noites, o narrador retorna em 2001 para a aldeia krahô, a fim de colher informações sobre Buell Qauin.


Q – Leitor e admirador de Basílio da Gama, e escritor já consagrado pela publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, Machado de Assis lança Várias histórias (1895). O livro reúne 16 contos, publicados anteriormente no jornal Gazeta de Notícias entre 1884 e 1891. Sobre Machado de Assis, leia o seguinte texto:
Um século depois de sua morte, Milton Hatoum afirma que os leitores atuais “nas narrativas breves do Bruxo vão encontrar os temas dos grandes romances: a loucura, o adultério, o jogo de sedução e poder, os carreiristas e alpinistas sociais, e a combinação de falta de escrúpulos e crueldade nas atitudes de determinada elite brasileira do século XIX. Um século depois da morte de Machado, alguns desses temas perduram, porque fazem parte constitutiva da natureza humana. Quanto à crueldade de uma elite que cultiva privilégios... até nisso Machado acertou em cheio, e com um pessimismo e uma ironia que nos deixam sem fôlego”.
(Terra magazine. Publicado em 22/09/2008. Disponível em:.)
Com base na leitura integral dos contos de Várias histórias e no trecho citado de Milton Hatoum, assinale a alternativa que propõe a associação correta entre tema central e conto.
a) O conto “Trio em lá menor” tem como tema central “a combinação de falta de escrúpulos e crueldade nas atitudes de determinada elite brasileira do século XIX”.
b) O conto “A causa secreta” tem como tema central a descrição de personagens “carreiristas e alpinistas sociais”.
c) O conto “Mariana” tem como tema central “a loucura”.
d) O conto “Adão e Eva” tem como tema central a suposição ou concretização do “adultério”.
►e) O conto “O diplomático” tem como tema central “o jogo de sedução”.

Resolução:
A) INCORRETA. Trio em Lá Menor trata da indecisão da protagonista Maria Regina em escolher um namorado entre duas opções.
B) INCORRETA. A Causa Secreta aborda, entre outros temas, o sadismo de Fortunato.
C) INCORRETA. Mariana trata de um amor que se deteriorou com o tempo (Evaristo e Mariana).
D) INCORRETA. Em Adão e Eva, o protagonista cria uma nova versão para essa passagem bíblica.
E) CORRETA. Apesar de haver esse jogo de sedução, o personagem Rangel não o coloca em prática; quem o faz é o convidado misterioso, Queirós, que além de o fazer, conquista o coração de Joaninha, “alvo” inicial de Queirós.


Q – Considere o seguinte trecho do romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto:
Por esse intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro. (Clara dos Anjos, p. 38.)
Com base no trecho selecionado e na leitura integral do romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto, assinale a alternativa correta.
a) O narrador é imparcial ao descrever os cenários do subúrbio e de outros pontos da cidade, demonstrando neutralidade na constatação das diferenças entre as regiões.
b) O subúrbio é descrito ora de modo realista, ora de modo idealizado, contribuindo para a construção de uma visão, por vezes, romantizada da pobreza.
c) O narrador disseca com rigor quase sociológico os problemas políticos da época, citando fatos e personagens históricos reais que se misturam à narrativa.
►d) O romance apresenta o ambiente do subúrbio aliando a descrição pormenorizada do espaço físico à caracterização dos personagens que o habitam.
e) Os vários bairros e personagens que estão nos arredores da linha férrea do trem urbano são descritos como um conjunto indiferenciado, como se cada bairro não tivesse sua característica própria.

Resolução:
A) INCORRETA. O narrador é parcial; não há neutralidade em suas descrições como sugere o trecho fornecido.
B) INCORRETA. Não há idealização nas descrições do espaço suburbano da obra Clara dos Anjos.
C) INCORRETA. Não há preocupação política por parte do autor e nem a citação de personagens históricos na obra.
D) CORRETA. Tal recurso confirma o Determinismo presente na obra.
E) INCORRETA. Tema abordado na revisão de véspera. A ideia passada pelo autor é a de que há uma uniformidade na periferia: todos os bairros são iguais.


Q – Anatol Rosenfeld, um importante estudioso da cena teatral brasileira, faz no trecho abaixo uma síntese que explica as motivações para o emprego de recursos narrativos na dramaturgia que, segundo ele, começa a ser realizada no Brasil ao fim da década de 50 do século XX.
O uso de recursos épicos por parte de dramaturgos e diretores teatrais não é arbitrário, correspondendo, ao contrário, a transformações históricas que suscitam o surgir de novas temáticas, novos problemas, novas valorações e novas concepções de mundo.
(ROSENFELD, Anatol: O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 1985, p. 12.)
Considerando o trecho citado e a leitura integral de Morte e Vida Severina, Auto de Natal Pernambucano, de João Cabral de Melo Neto, e Eles não usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, assinale a alternativa correta.
a) O auto de João Cabral de Melo Neto utiliza o verso e recursos da tradição oral popular do Nordeste para reforçar o caráter religioso da peça, excluindo indícios de crítica social aos problemas regionais.
►b) O conflito entre pai e filho em Eles não usam Black-tie transpõe para o ambiente cotidiano de uma família os conflitos e impasses da classe operária diante dos desmandos dos patrões.
c) A peça de Guarnieri faz referências à cultura e ao ambiente da favela, incluindo até letras de sambas antigos, o que reforça a imagem idealizada do morro e da figura do malandro.
d) Morte e vida Severina utiliza versos de metrificação idêntica em todo o texto, o que prejudica o ritmo musical e melódico, ao contrário do que se observa na peça de Guarnieri.
e) Os personagens da peça de Guarnieri são considerados alegóricos, porque não apresentam conflitos psicológicos, enquanto os de João Cabral são personagens individualizados e diversos entre si.

Resolução:
A) INCORRETA. Um dos pontos centrais da obra mencionada é a crítica social.
B) CORRETA.
C) INCORRETA. Não há idealização na obra de Guarnieri. O único samba mostrado na peça é a canção de Adoniran Barbosa.
D) INCORRETA. Há variação métrica ao longo das cenas da peça de João Cabral de Melo Neto.
E) INCORRETA. Em Guarnieri não há alegoria entre os personagens; em João Cabral de Melo Neto a alegoria se dá no plano religioso.




domingo, 29 de outubro de 2017

Resolução da prova de Literatura Brasileira da UFPR 2017/2018 (29/10/17)



Q – A respeito dos poemas que compõem o livro Últimos Cantos (1851), do maranhense Gonçalves Dias, assinale a alternativa correta.
a) O nacionalismo romântico se expressa no antológico poema “Canção do exílio”, que abre o livro com um tom laudatório: “Nosso céu tem mais estrelas, / Nossas várzeas têm mais flores, / Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida mais amores”.
b) O embate entre tribos indígenas, com a consequente prisão de um guerreiro, é narrado em “I-Juca-Pirama”, poema marcado por variedade métrica: “O prisioneiro, cuja morte anseiam, / Sentado está, / O prisioneiro, que outro sol no ocaso / Jamais verá!”.
c) A pureza racial dos indígenas brasileiros é exaltada no poema “Marabá” por meio da descrição da personagem-título: “— Meus olhos são garços, são cor das safiras, / — Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar; / — Imitam as nuvens de um céu anilado, / — As cores imitam das vagas do mar!”.
d) O aspecto fúnebre das lendas românticas é representado no poema “O gigante de pedra”, em que se destaca a monstruosidade do personagem: “Gigante orgulhoso, de fero semblante, / Num leito de pedra lá jaz a dormir! / Em duro granito repousa o gigante, / Que os raios somente puderam fundir”.
e) O lirismo romântico prefere temas delicados, como as brincadeiras inocentes da criança em “Mãe-d’água”: “Minha mãe, olha aqui dentro, / Olha a bela criatura, / Que dentro d’água se vê! / São d’ouro os longos cabelos, / Gentil a doce figura, / Airosa leve a estatura; / Olha, vê no fundo d’água / Que bela moça não é!”.

Resolução:
A) INCORRETA. O poema “Canção do Exílio” não faz parte da obra Últimos Cantos.
B) CORRETA. A variedade métrica é uma estratégia do autor para conferir ritmo ao poema e, também, sugerir ao leitor as mudanças das ações narradas como, por exemplo, a captura e a posterior soltura do protagonista.
C) INCORRETA. A protagonista de “Marabá” é uma índia mestiça, conforme sugere a própria significação da expressão indígena “marabá” = mayra (francês) + aua (índio). Ou seja, a protagonista do poema é fruto de uma relação entre um francês e uma índia brasileira. Por não apresentar traços típicos indígenas, acaba sendo desprezada pelos guerreiros de sua tribo.
D) INCORRETA. “O Gigante de Pedra” é a reconstituição de uma lenda indígena e não aborda aspectos fúnebres. O poema “Nênia”, por exemplo, é um poema que traz a temática sugerida pela banca: aborda a morte de D. Pedro I.
E) INCORRETA. O poema “Mãe D´Água” reconstitui outra lenda indígena. Neste caso, temos a lenda da Uiara (ou Iara).


Q – No romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto, o narrador tece considerações generalizantes a respeito da sociedade de sua época, ao mesmo tempo em que narra a vida da protagonista, de sua família e a malandragem de Cassi Jones. A respeito de aspectos da construção de Clara ou de fatos de que ela participa, assinale a alternativa correta.
a) A afirmação “é próprio do nosso pequeno povo fazer uma extravagante amálgama de religiões e crenças de toda a sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os transes e momentâneas agruras de sua existência” (capítulo I) explica a frequência de Clara a igrejas e templos de diferentes religiões.
b) A frase “A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, encontrando ponto de honra, brigando, especialmente as mulheres” (capítulo VII) alude às provocações que Clara desferia contra suas vizinhas.
c) A ponderação “Cada um de nós, por mais humilde que seja, tem que meditar, durante a sua vida, sobre o angustioso mistério da Morte, para poder responder cabalmente, se o tivermos que o fazer, sobre o emprego que demos a nossa existência” (capítulo VIII) refere-se à cena da morte de Clara.
d) O comentário “O seu ideal na vida não era adquirir uma personalidade, não era ser ela, mesmo ao lado do pai ou do futuro marido. Era constituir função do pai, enquanto solteira, e do marido, quando casada. Não imaginava as catástrofes imprevistas da vida” (capítulo VIII) prenuncia as dificuldades que Clara enfrentou no seu casamento com Cassi.
e) A análise “A educação que recebera, de mimos e vigilâncias, era errônea. Ela devia ter aprendido da boca dos seus pais que a sua honestidade de moça e de mulher tinha todos por inimigos, mas isto ao vivo, com exemplos, claramente...” (capítulo X) denuncia a frágil educação recebida por Clara como responsável pelo seu destino.

Resolução:
A) INCORRETA. A personagem Clara dos Anjos não frequentava igrejas nem templos de diversas religiões. Os pais de Clara não permitiam que a menina saísse de casa desacompanhada dos pais ou da vizinha de confiança, dona Margarida. Um personagem que se sentiu atraído pela igreja luterana, liderada por Mr. Quick Shays, foi João Pintor, um vizinho de Joaquim, Pai de Clara.
B) INCORRETA. Clara não desferia provocações contra as suas vizinhas. Pelo contrário, ela se caracteriza pela ingenuidade em relação às “coisas do mundo”.
C) INCORRETA. A protagonista Clara dos Anjos não morre. Dois personagens que morrem na obra são Marramaque e Meneses.
D) INCORRETA. Clara não se casa com Cassi. Na verdade, ela é seduzida pelo malandro.
E) CORRETA. Lima Barreto sugere que a educação altamente conservadora foi crucial para que Clara se deixasse seduzir por Cassi Jones.

Q – Considere os versos da canção abaixo:
Nosso amor é mais gostoso
Nossa saudade dura mais
Nosso abraço mais apertado
Nós não usa as “bleque tais”!

O samba “Nóis não usa as bleque tais”, composto por Adoniran Barbosa e Gianfrancesco Guarnieri, serviu de trilha sonora para a peça Eles não usam black-tie (1958). A respeito do assunto, assinale a alternativa correta.
a) A escolha de um samba como trilha sonora diminuiu a contundência da crítica social pretendida pelo autor da peça, Gianfrancesco Guarnieri.
b) A diferença entre o amor “mais gostoso” e o amor de quem usa “bleque-tais”, com vantagem para o primeiro, dilui o efeito da oposição entre interesses coletivos e individuais, tema central da peça.
c) O samba, entoado na peça pelo personagem Chiquinho, colabora para a representação e valorização da cultura popular.
d) Tião, que usa “black-tie” (smoking e gravata), representa na peça o opressor, cujo poder é empregado para reprimir a greve organizada pelos moradores do morro.
e) A valorização da vida simples e a consequente rejeição da possibilidade de ascensão social conduzem aos finais trágicos de Tião e de Otávio.

Resolução:
A) INCORRETA. A denúncia social é o tema principal da peça de Guarnieri, seja no que diz respeito aos direitos da classe operária, seja no que diz respeito às condições de vida no morro.
B) INCORRETA. Não há, na peça teatral em questão, o enfraquecimento entre os interesses coletivos (simbolizado por Otávio) e os interesses individuais (simbolizado por Tião).
C) CORRETA. O gabarito da UFPR traz esse item como correto, mas, na verdade, quem entoa o samba ao longo da peça é a personagem Juvêncio, sambista que mora no morro. Chiquinho é quem comunica a Romana que Juvêncio estava triste porque alguém teria “roubado” a música de Juvêncio e gravado.
D) INCORRETA. Tião é filho de Otávio, logo, não usa “black-tie”.
E) INCORRETA. Tião e Otávio não têm finais trágicos. Tião vai embora de casa e Otávio, depois de ser solto da cadeia, acaba voltando para a casa.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
 
“Canção para álbum de moça”:
Bom-dia: eu dizia à moça
que de longe me sorria.
Bom-dia: mas da distância
ela nem me respondia.
Em vão a fala dos olhos
e dos braços repetia
bom-dia à moça que estava
de noite como de dia
bem longe de meu poder
e de meu pobre bom-dia.
Bom-dia sempre: se acaso
a resposta vier fria
ou tarde vier, contudo
esperarei o bom-dia.
E sobre casas compactas
sobre o vale e a serrania
irei repetindo manso
a qualquer hora: bom-dia.
Nem a moça põe reparo
não sente, não desconfia
o que há de carinho preso
no cerne deste bom-dia.
Bom dia: repito à tarde
à meia-noite: bom dia.
E de madrugada vou
pintando a cor de meu dia
que a moça possa encontrá-lo
azul e rosa: bom-dia.
Bom-dia: apenas um eco
na mata (mas quem diria)
decifra minha mensagem,
deseja bom o meu dia.
A moça, sorrindo ao longe
não sente, nessa alegria,
o que há de rude também
no clarão deste bom-dia.
De triste, túrbido, inquieto,
noite que se denuncia
e vai errante, sem fogos,
na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses
Ao meu bom-dia: bom-dia!
Como a noite se mudara
no mais cristalino dia!

Q – Considerando o poema acima e o livro de que ele é parte integrante – Claro Enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade –, assinale a alternativa correta.
a) O poema apresenta a esperança de interação do eu-lírico com uma moça, sem deixar de lado os sentimentos perturbadores que contrastam com a aparente alegria do emissor.
b) O poema em questão guarda semelhanças com outro poema do mesmo livro, “Tinha uma pedra no meio do caminho”, o que se observa pela insistência num só tema e pela repetição dos versos.
c) A palavra “canção”, no título, e o repetido cumprimento “bom-dia” criam uma atmosfera de leveza e romantismo presente também no poema “A mesa”, que descreve a rotina familiar.
d) Observa-se uma mudança na atitude do eu-lírico quando a moça responde a seu cumprimento: de triste e inquieto, passou a se sentir alegre e túrbido pela resposta que transformou o seu dia.
e) A cotidianidade da vida moderna se mostra nesse diálogo marcado pelo ritmo frenético dos versos futuristas e pela velocidade do eu-lírico que se desloca por um cenário urbano.

Resolução:
A) CORRETA. Veja o trecho: “A moça, sorrindo ao longe não sente, nessa alegria, o que há de rude também no clarão deste bom-dia. De triste, túrbido, inquieto, noite que se denuncia e vai errante, sem fogos, na mais louca nostalgia”.
B) INCORRETA. O poema “No Meio do Caminho” não faz parte de “Claro Enigma”. Tal poema encontra-se na obra “Alguma Poesia”.
C) INCORRETA. Atmosfera romântica não é um tema presente na obra de Drummond. Além disso, em “A Mesa” temos a simulação da festa de aniversário do pai do poeta que, na realidade, já havia falecido.
D) INCORRETA. A moça não responde ao cumprimento do eu-lírico.
E) INCORRETA. Não há tendências futuristas no poema em questão.

Q – O romance histórico A última quimera (1995), de Ana Miranda:
a) é narrado pelo poeta e cronista Olavo Bilac, o qual usa notícias de jornais cariocas para buscar fidedignidade aos fatos históricos de que trata o enredo.
b) fornece um retrato de uma geografia pouco explorada pela ficção brasileira, isto é, os subúrbios do Rio de Janeiro, estado natal de Augusto dos Anjos.
c) narra de maneira linear a vida de Augusto dos Anjos até seu sepultamento, e essa linearidade permite que o romance seja classificado como histórico.
d) cita e parafraseia textos poéticos de Augusto dos Anjos, fazendo com que sua poesia construa ideias e argumentos seus e de outros personagens.
e) parodia, nas epígrafes, trechos de crônicas de Olavo Bilac e Augusto dos Anjos, retratando de forma bem-humorada a Belle Époque tropical.

Resolução:
A) INCORRETA. O narrador da obra é um amigo de Augusto dos Anjos que não tem o seu nome revelado.
B) INCORRETA. Augusto dos Anjos não é natural do Rio de Janeiro. Ele nasceu no interior da Paraíba.
C) INCORRETA. A obra não é narrada de forma linear. A narrativa começa no dia da morte de Augusto dos Anjos e é ditada pela memória do narrador, não respeitando, a rigor, o tempo cronológico.

D) CORRETA. Trata-se de um recurso usado magistralmente pela autora da obra que, para produzi-la, se baseou, entre outros, em poemas do próprio autor e em cartas trocadas por ele.
E) INCORRETA. A única epígrafe da obra são versos de um poema de Augusto dos Anjos: “a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

Q – Sobre o Sermão de Santo Antônio aos peixes (século XVII), do Padre Antônio Vieira, assinale a alternativa correta.
a) Trata-se de um texto barroco, o que se nota pelo reaproveitamento intertextual que faz de um texto clássico, isto é, do sermão que três séculos antes o próprio Santo Antônio havia pregado.
b) O sermão é dirigido aos outros pregadores, indicando o que devem fazer para ser o sal da terra, ou seja, para que sejam eficazes em sua ação.
c) Na segunda metade do sermão, ao apontar os defeitos dos peixes, o Padre Antônio Vieira relaciona esses defeitos aos problemas das sociedades humanas.
d) Os peixes voadores são louvados no sermão, já que superam suas limitações de peixe para se levantarem o quanto possível na direção do céu, aproximando-se de Deus.
e) Vieira se refere a peixes mencionados por santos, pela Bíblia e por autores clássicos, mas não a peixes da costa brasileira, o que denota seu desinteresse por temas locais.

Resolução:
A) INCORRETA. O sermão de Vieira não se baseia num texto clássico. A inspiração de Antônio Vieira foi um fato atribuído a Santo Antônio, na cidade de Arimino, na Itália, onde ele desistiu de levar suas pregações aos homens e passou a pregar aos peixes, que vieram ouvi-lo, causando assombro nos hereges da cidade.
B) INCORRETA. Esse item pode ter confundido alguns candidatos. Na verdade, apenas a 1ª parte do sermão é dirigida aos pregadores. No geral, o sermão é dirigido aos colonos do Maranhão, local onde o sermão foi pregado por Padre Vieira.
C) CORRETA. Vieira se utiliza de um recurso alegórico: assim como as qualidades dos peixes são as qualidades dos homens (1ª metade) os defeitos dos peixes, por extensão, são os defeitos dos homens (2ª metade).
D) INCORRETA. O peixe voador é repreendido, pois, acreditando ser uma ave, ele acredita que pode voar. Alegoricamente, Vieira sugere que o peixe voador representa os ambiciosos que querem se tornar e/ou ter uma vida como a daqueles que não podem ser/ter.
E) INCORRETA. O peixe quatro-olhos é um peixe da região do Pará, mencionado por Vieira na parte III do seu sermão. O único peixe bíblico citado pelo autor é o Peixe de Tobias (também na parte III). Não há citação de peixes mencionados por autores clássicos. Vieira utiliza os clássicos como referenciais para sustentar algumas de suas argumentações apresentadas ao longo de seu sermão.